Minha vida de aventuras

Cap. 4 – Um dia muito punk

Minha curiosidade em conhecer a vizinhança era crescente. Eu precisava ‘expandir meus horizontes’, ver como era o mundo além da segurança da minha casa. Eu precisava criar coragem e atravessar aquele portão; afinal eu já era um ‘moço’.
Na minha primeira escapada, não fui muito longe; só dei umas voltinhas pela calçada em frente de casa até a primeira esquina. Com o tempo, mais confiante, fui indo mais longe até que descobri um lugar interessante; era uma espécie de beco, que ficava escondido entre árvores imensas de uma pracinha. Muito legal aquele espaço. Cheguei de mansinho e logo me deparei com três pares de olhos verdes olhando fixo em minha direção. Não me intimidei; me aproximei mais um pouco e cumprimentei os três gatos – um preto, um cinza rajado e um branco com manchas pretas. Eles continuaram com caras de poucos amigos, me encarando e meio na defensiva. Mas, como não recuei, eles cederam, abriram a guarda e começamos a conversar. Logo de cara fui avisando que não estava ali para disputar nada, nem comida e, muito menos, território. Ficamos amigos.
A partir daquele dia, todas as tardes eu partia rumo ao beco para encontrar meus camaradas e jogar conversa fora. Você sabe, papo de gato. Nessas conversas, eles contaram que se criaram na rua e aprenderam, à força, a sobreviver. Não reclamavam da vida, ao contrário, afirmavam que a liberdade que tinham valia o sacrifício. Eu desconfiava dessa parte, mas não contestava. Diziam que sempre aparecia alguém que lhes dava comida; água também não faltava e que, quando chovia ou fazia frio, tinham um esconderijo secreto que dava conta. Várias vezes, eles me advertiram para que eu tomasse cuidado porque há muito humano malvado e capaz das maiores crueldades possíveis. Eles sabiam muito bem o que diziam porque já haviam se safado de poucas e boas. Achei meio exagerado. Eu conhecia um monte de humanos e eles eram sempre carinhosos e amorosos comigo; até os que eu nem sabia quem eram e que encontrava pelo caminho.
Com o tempo, eu já conhecia bem cada metro dos dois quarteirões que separavam a minha casa do beco dos gatos. Na calçada em que eu seguia tinha a casa do poodle branco que, pressentindo a minha passagem, já começava a latir enlouquecido; eu nem dava bola. Pouco mais à frente, do outro lado da rua ficava a casa que tinha como guarda um rottweiller imenso; ele nem se importava comigo. Havia ainda a casa branca com jardim de margaridas, vizinha à casa de dois garotinhos que, todos os dias, brincavam de bola no jardim. Tudo muito familiar. Às vezes eu cruzava com uma moça que, sempre que me via, parava e fazia questão de me fazer um cafuné. Por isso, não dei muita bola para esse alerta dos meus amigos e me arrependi até meu último pelo por ter desprezado o conselho.
Naquela tarde, eu seguia a minha rotina; logo após a soneca regular depois do almoço, saí, caminhando calmamente, como sempre. O poddle branco latiu e o rottweiller se manteve impassível, só observando; os meninos não estavam brincando no jardim e a moça do carinho não apareceu, mas eu segui tranquilo, totalmente despreocupado. Até que percebi um moço vindo em minha direção e me olhando fixo. Achei que ia parar e fazer um carinho; até diminui o passo. Ledo engano. Ele realmente parou. Mas a intenção era outra. Parou e me chutou com toda força do mundo. Eu voei, dei duas voltas no ar e me esborrachei no chão; não satisfeito, ele me chutou mais algumas vezes. Acho que meu miado/grito foi tão alto que os meninos correram para o portão, o poddle se esgoelou e o roittweiller começou a latir e a pular, tão forte e alto, que o homem saiu correndo. O alvoroço foi geral. Até meus amigos do beco apareceram correndo, mas não havia mais nada para fazer... já estava feito! E a consequência de tamanha crueldade, irreversível...

continua...

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